quarta-feira, 25 de maio de 2016

Parte 22

      Robespierre, no fundo, era um aristocrata. Uma vez, Danton o convidou para jantar em sua casa. Dirigiu-se ao convidado desta forma:

      - Eis aqui uma mesa farta. Está ao teu gosto, querido Robespierre? Há alguma coisa que falte? Queres que eu providencie mais algum acepipe? Não? O vinho está à tua altura? Pois bem. Então, vamos comer e beber. E por falar em comer, sabias que mais da metade do povo francês está passando fome?!... Eh! Fome!... Sabias que os nossos sistemas de abastecimento estão um caos?!... Não? Pois, então, saibas. E sabes quem é que está tentando manter esta joça de país funcionando?!... EU, querido Robespierre!... Sou EU que recebo as súplicas das províncias. EU, que não consigo dormir direito, preocupado com as nossas internas tragédias e com as ameaças externas. Sou EU que mobilizo o exército. Sou EU que assino as sentenças de morte da nobreza que sempre nos massacrou. E nem tenho tempo de pensar no que faço. Sou EU que estou tentando, em vão, conter este mar de sangue. EU. Prova este faisão, pois deve estar uma delícia. Jean, sirva ao grande Robespierre um peito do faisão, por favor, que ele irá adorar!... E tu não falas nada? Por favor, não digas nada. Apenas come, bebe e me escuta. Não é gostoso?!... Tens algo a reclamar? Eu sei que tramas contra a minha vida, pois não podes suportar o Poder que tenho. Fica à vontade. Eu sei. Sei de tudo. Nada me escapa, querido!... E sei que conseguirás. Não importa. Somos eternos. O espírito é indestrutível. O corpo é só uma carcaça. E a tua hora também há de chegar. Inevitável!... Cavas a tua própria cova. Eu me enganei ao pensar que poderias compreender. Tu não és capaz de entender, pois não passas de um pobre iludido!... É só isso. Jean, por favor, conduza agora o grande Robespierre até a porta...


      Depois que este saiu, Danton pediu ao mordomo que passasse o jantar para os pobres e o deixasse a sós. A esposa e os filhos estavam na casa do sogro. Sem levantar-se da mesa, sentado à cabeceira, deixou-se ficar, abatido por um peso insuportável, sentindo a morte na alma. E viu, em meio a toda a sua agonia, numa repentina percepção premonitória, que viria a seguir um banho de sangue muito maior, na figura de um ditador francês que levaria o caos e a morte a toda a Europa. Num extremo desalento, pousou a cabeça dentro do seu prato vazio e começou a chorar convulsivamente.

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