Robespierre, no fundo, era um
aristocrata. Uma vez, Danton o convidou para jantar em sua casa. Dirigiu-se ao
convidado desta forma:
- Eis aqui uma mesa farta. Está ao teu
gosto, querido Robespierre? Há alguma coisa que falte? Queres que eu
providencie mais algum acepipe? Não? O vinho está à tua altura? Pois bem.
Então, vamos comer e beber. E por falar em comer, sabias que mais da metade do
povo francês está passando fome?!... Eh! Fome!... Sabias que os nossos sistemas
de abastecimento estão um caos?!... Não? Pois, então, saibas. E sabes quem é
que está tentando manter esta joça de país funcionando?!... EU, querido
Robespierre!... Sou EU que recebo as súplicas das províncias. EU, que não
consigo dormir direito, preocupado com as nossas internas tragédias e com as
ameaças externas. Sou EU que mobilizo o exército. Sou EU que assino as
sentenças de morte da nobreza que sempre nos massacrou. E nem tenho tempo de
pensar no que faço. Sou EU que estou tentando, em vão, conter este mar de
sangue. EU. Prova este faisão, pois deve estar uma delícia. Jean, sirva ao
grande Robespierre um peito do faisão, por favor, que ele irá adorar!... E tu
não falas nada? Por favor, não digas nada. Apenas come, bebe e me escuta. Não é
gostoso?!... Tens algo a reclamar? Eu sei que tramas contra a minha vida, pois
não podes suportar o Poder que tenho. Fica à vontade. Eu sei. Sei de tudo. Nada
me escapa, querido!... E sei que conseguirás. Não importa. Somos eternos. O
espírito é indestrutível. O corpo é só uma carcaça. E a tua hora também há de
chegar. Inevitável!... Cavas a tua própria cova. Eu me enganei ao pensar que
poderias compreender. Tu não és capaz de entender, pois não passas de um pobre
iludido!... É só isso. Jean, por favor, conduza agora o grande Robespierre até
a porta...
Depois que este saiu, Danton pediu ao
mordomo que passasse o jantar para os pobres e o deixasse a sós. A esposa e os
filhos estavam na casa do sogro. Sem levantar-se da mesa, sentado à cabeceira,
deixou-se ficar, abatido por um peso insuportável, sentindo a morte na alma. E
viu, em meio a toda a sua agonia, numa repentina percepção premonitória, que
viria a seguir um banho de sangue muito maior, na figura de um ditador francês
que levaria o caos e a morte a toda a Europa. Num extremo desalento, pousou a
cabeça dentro do seu prato vazio e começou a chorar convulsivamente.
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