Quando Lula tomou posse em 1° de janeiro
de 2003, toda a militância esquerdista sabia que não seria adotado o socialismo
no Brasil, o bicho-papão comunista da burguesia. Mas, certamente, contava com
um governo essencialmente de esquerda vigendo sob um capitalismo menos predador
e mais humano. Por sua vez, os líderes do PT tinham a perfeita noção de que
enfrentariam constantes ataques da oposição, a qual tentaria desestabilizar a
todo custo a administração petista. Portanto. a sua atuação teria de ser
impecável, pois o menor deslize moral seria usado como arma pelo inimigo. Com
uma sólida formação política, toda a liderança petista percebia que a
construção de um projeto progressista e revolucionário, a médio e longo prazo,
tinha de levar em conta, de modo incondicional, a politização das massas e a
valorização de todos os movimentos sociais. Afinal de contas, o PT era de
esquerda e arcava com a imensa responsabilidade de governar realmente EM NOME
do povo e PARA o povo, na frágil democracia brasileira. Possuía, enfim, o PODER
nas mãos. E Lula encarnava as esperanças nacionais de redenção, na figura de
nordestino pobre, de retirante e imigrante, de operário e sindicalista. Lula
era o alter ego da genuína raça brasiliana. Era a antropofagia e o
tropicalismo. Era o arquétipo do Jeca Tatu do grande Monteiro Lobato. Embora
isso fosse apenas substrato instintivo da psique tupiniquim. Tudo o que ele foi
antes deste dia histórico necessitaria de uma solução de continuidade, sem
rupturas significativas, apesar da esmagadora tarefa de Sísifo de escalar o
rochedo de séculos de exploração e subserviência. Derrotado em três eleições,
sublimado por grandes sofrimentos, seria impensável prever, nesta ocasião, um
arrefecimento de seu compromisso visceral com posturas essenciais ao programa
partidário. Mesmo porque, estava escorado numa elite intelectual esquerdista de
primeira grandeza. Bastava apenas instaurar um autêntico capitalismo, sem o
arrombamento dos cofres públicos, num modelo econômico ortodoxo, mas comendo
pelas beiras, na construção revolucionária de um SOCIALISMO “SOCIAL”, de cunho
popular, preparando a SOCIEDADE para futuras conquistas HUMANISTAS, posto que o
HOMEM, cada cidadão, é o verdadeiro gestor desta abstração chamada Nação. É
claro que o José Dirceu sabia disso! E muitos mais! Foi o melhor dia da nossa
História. Valeu pelo SONHO. Infelizmente, a “máquina infernal”, no dizer de
Jean Cocteau, na verdade é a DIALÉTICA. Hoje vivemos o PESADELO. Não importa.
Em termos coletivos, o tempo é muito mais lento. Haverá de vir um NOVO DIA no
qual as CATARSES SOCIAIS serão liberadas numa GRANDE APOTEOSE COLETIVISTA, seja
o que for que isso signifique. O futuro GOROU. Não foi desta vez. Lula me faz
lembrar um filme da infância, “Vinte Mil Léguas Submarinas”, de Walt Disney, da
obra de Julio Verne, naquela cena fantástica do ataque do POLVO GIGANTE. Num arremedo
de interpretação psicanalítica, naquele primeiro dia de 2003, na cerimônia de
posse, no subconsciente de Lula, o POVO AGIGANTOU-SE e se transformou num
MONSTRO ASSUSTADOR. O que denota que a única forma genuína e honrada de fazer
política é o AMOR INCONDICIONAL à “res publica”, uma entrega absoluta ao
FUNDAMENTO de todo o edifício social: o HOMEM COMUM, o famigerado POVO.
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