quarta-feira, 25 de maio de 2016

Parte 7

      Quando Lula tomou posse em 1° de janeiro de 2003, toda a militância esquerdista sabia que não seria adotado o socialismo no Brasil, o bicho-papão comunista da burguesia. Mas, certamente, contava com um governo essencialmente de esquerda vigendo sob um capitalismo menos predador e mais humano. Por sua vez, os líderes do PT tinham a perfeita noção de que enfrentariam constantes ataques da oposição, a qual tentaria desestabilizar a todo custo a administração petista. Portanto. a sua atuação teria de ser impecável, pois o menor deslize moral seria usado como arma pelo inimigo. Com uma sólida formação política, toda a liderança petista percebia que a construção de um projeto progressista e revolucionário, a médio e longo prazo, tinha de levar em conta, de modo incondicional, a politização das massas e a valorização de todos os movimentos sociais. Afinal de contas, o PT era de esquerda e arcava com a imensa responsabilidade de governar realmente EM NOME do povo e PARA o povo, na frágil democracia brasileira. Possuía, enfim, o PODER nas mãos. E Lula encarnava as esperanças nacionais de redenção, na figura de nordestino pobre, de retirante e imigrante, de operário e sindicalista. Lula era o alter ego da genuína raça brasiliana. Era a antropofagia e o tropicalismo. Era o arquétipo do Jeca Tatu do grande Monteiro Lobato. Embora isso fosse apenas substrato instintivo da psique tupiniquim. Tudo o que ele foi antes deste dia histórico necessitaria de uma solução de continuidade, sem rupturas significativas, apesar da esmagadora tarefa de Sísifo de escalar o rochedo de séculos de exploração e subserviência. Derrotado em três eleições, sublimado por grandes sofrimentos, seria impensável prever, nesta ocasião, um arrefecimento de seu compromisso visceral com posturas essenciais ao programa partidário. Mesmo porque, estava escorado numa elite intelectual esquerdista de primeira grandeza. Bastava apenas instaurar um autêntico capitalismo, sem o arrombamento dos cofres públicos, num modelo econômico ortodoxo, mas comendo pelas beiras, na construção revolucionária de um SOCIALISMO “SOCIAL”, de cunho popular, preparando a SOCIEDADE para futuras conquistas HUMANISTAS, posto que o HOMEM, cada cidadão, é o verdadeiro gestor desta abstração chamada Nação. É claro que o José Dirceu sabia disso! E muitos mais! Foi o melhor dia da nossa História. Valeu pelo SONHO. Infelizmente, a “máquina infernal”, no dizer de Jean Cocteau, na verdade é a DIALÉTICA. Hoje vivemos o PESADELO. Não importa. Em termos coletivos, o tempo é muito mais lento. Haverá de vir um NOVO DIA no qual as CATARSES SOCIAIS serão liberadas numa GRANDE APOTEOSE COLETIVISTA, seja o que for que isso signifique. O futuro GOROU. Não foi desta vez. Lula me faz lembrar um filme da infância, “Vinte Mil Léguas Submarinas”, de Walt Disney, da obra de Julio Verne, naquela cena fantástica do ataque do POLVO GIGANTE. Num arremedo de interpretação psicanalítica, naquele primeiro dia de 2003, na cerimônia de posse, no subconsciente de Lula, o POVO AGIGANTOU-SE e se transformou num MONSTRO ASSUSTADOR. O que denota que a única forma genuína e honrada de fazer política é o AMOR INCONDICIONAL à “res publica”, uma entrega absoluta ao FUNDAMENTO de todo o edifício social: o HOMEM COMUM, o famigerado POVO. 

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