quinta-feira, 26 de maio de 2016

Parte 52

      Textos de Roberto Danunzio – Parte Final

      “Número um, não nos esqueçamos que o PT está até hoje no comando em Brasília por causa de um líder carismático que precisou aparar a barba e vestir um terno e contratar um marqueteiro como outro qualquer para ganhar uma eleição. Este partido, depois que aprendeu, passou a trabalhar para o voto alienado. Achava que a ascensão social dos pobres ia garantir-lhe o voto de cabresto, só que o mesmo sujeito que recebe a bolsa família hoje é o pai daquela moçada que não vota em Dilma amanhã, sei lá, porque não gosta de seu penteado, e vota em Aécios, Alkmins e produtos similares porque gostou de seu ar tecnocrático de competência burguesa, igual ao da adversária, mas com um charminho a mais.”

      “A situação é esta, meus caros, não é preciso ser um gênio da sociologia para saber porque o PT está perdendo em geral e quase perdeu o governo federal: não conta mais com boa parte do voto alienado e conta cada vez menos com o voto engajado, consciente, bem informado, isto é, o voto de esquerda. Pela construção de uma oposição à esquerda do PT e aliados, é nossa única saída.”

      “Já deu, gente, precisamos nos unir numa grande frente de esquerda fazendo oposição ao PT, nas ruas e nas instituições. É tarefa para ontem, portanto não percamos mais tempo dando munição para o inimigo, ainda é tempo. Serão mais vinte anos de luta para reconquistar alguma coisa a partir de uma posição clara de esquerda, sem esquecer as lições, pelo menos, da história recente.”

      “É bom ter bons sentimentos, confiar no ‘coração valente’ da presidenta, mas não podemos ser idiotas, não podemos fazer mais papel de idiotas, caríssimos!”

      “Precisei envelhecer para agora ficar escutando, diuturnamente, o bla bla bla do desenvolvimentismo como se, agora, fosse discurso de esquerda. Acho que desisto, jogo a toalha.”

      “Isto não é esquerda, gente, presta atenção. E Lula não escapou a esta nova lógica. Ele diz em seu discurso que fez uma revolução social. Acredito. Uma jovem de dezoito anos que saiu da miséria graças à bolsa família dada a seus pais, vota em Geraldo Alckmin, o homem que vai entrar para a história como aquele que acabou com a água de São Paulo. Esta a revolução pelo consumo que Lula diz ter feito, da qual ele e seu partido em breve estão sendo vítimas. Na hora que o bicho pega, como nas últimas eleições, correm para os braços do povo para serem salvos.”

      “Sonhei que estava ao lado de Lula numa varanda alta contemplando o horizonte. Ele tem aquele seu ar convincente bonachão e me dava tapinhas nas costas e dizia ‘calma, garoto, não seja tão ansioso, estamos trabalhando’. Em certo momento eu olhei para a cara do velho e bom companheiro, ele corado, vivaz, sanguíneo, de sorriso brilhante e olhar cheio de certezas definitivas, e me vi também como num espelho, cabisbaixo, soturno, ar de quem fraqueja, cansado, eterno derrotado. Do meu lado direito havia uma luneta. Peguei-a e mirei no horizonte para ver se fixava a pequena estrela vermelha do socialismo. Estava lá mas pequenina como um grão de areia, mal se podia divisar. Enquanto isto, mais tapinhas nas costas: ‘calma, garoto’...”

      A última intervenção do Roberto Danunzio no “Carta Maior”, em 2-7-2015, foi esta:


      “O PT se esgotou, não tem mais defesa. Devemos começar a agir o quanto antes para reconstruir a esquerda fora do PT, sem a ilusão de que o partido está do nosso lado. Isto está nos fazendo perder um tempo precioso, pois será uma luta de pelo menos duas décadas para reerguer a cabeça da esquerda, voltarmos a ser altivos, como antes de 2002.”

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