sexta-feira, 27 de maio de 2016

Parte 92

      O texto a seguir é uma síntese das 91 partes anteriores. Para que a análise permanecesse a mais abrangente possível e não sofresse com a exiguidade, fui obrigado a ser prolixo.
      CRÍTICA  DO  PT  POR  UM  PETISTA
      Acompanhando na internet os fatos desde 2010, e com mais assiduidade desde 2014, foram raríssimos os textos críticos que li com relação ao Lula, à Dilma e ao Partido dos Trabalhadores. Praticamente só existiu no meio virtual a condenação da extrema-direita, como se esta fosse a única responsável pela crise política. Não é. Os erros cometidos pelo PT foram tantos e tão graves que a ele pode ser imputada uma grande parcela de responsabilidade na tragédia que culminou neste 11 de maio de 2016, com a perda do Governo Federal. Apontar tais erros é o objetivo deste texto. Recomendo com veemência que seja lido até o final, apesar de ser extenso, mesmo porque o leitor jamais encontrará algo semelhante em parte alguma, disso tenho absoluta certeza.
      O governo do FHC, de 1995 a 2002, privatizou várias estatais a preço de banana, não realizou nenhuma obra, recorreu três vezes ao FMI, arrochou salários, provocou miséria, fome e mortes na população mais pobre e instaurou uma forte recessão econômica, com juros altos e altas taxas de desemprego, dentre inúmeros outros grandes danos provocados ao país. Mas o pior de tudo foi a roubalheira desenfreada em cima do erário público, com bilhões de reais sendo desviados para contas particulares em paraísos fiscais, beneficiando centenas de autênticos bandidos disfarçados de políticos, revelada no livro “A Privataria Tucana”, de Amaury Ribeiro Júnior. Após este caos neoliberal, a partir de 2003 Lula conseguiu reverter o quadro distribuindo renda para a população carente, criando vários programas sociais, dinamizando a economia, pagando a dívida externa, realizando inúmeras obras em todo o Brasil, colocando o desemprego em níveis baixos, escapando da crise financeira internacional, aumentando salários, aderindo ao bloco do BRICS e retirando milhões de pessoas da linha da miséria, dentre outras louváveis realizações.
      Com uma sólida formação política, toda a liderança petista percebia, nos primórdios do partido, que a construção de um projeto progressista e revolucionário, a médio e longo prazo, tinha de levar em conta, de modo incondicional, a politização das massas e a valorização de todos os movimentos sociais. Afinal de contas, o PT era de esquerda e arcava com a imensa responsabilidade de governar realmente EM NOME do povo e PARA o povo, na frágil democracia brasileira. Bastava apenas instaurar um autêntico capitalismo, sem o arrombamento dos cofres públicos, num modelo econômico ortodoxo, mas comendo pelas beiras, na construção revolucionária de um socialismo “social”, de cunho popular, preparando a sociedade para futuras conquistas humanistas, posto que o homem, cada cidadão, é o verdadeiro gestor desta abstração chamada Nação.
      O principal erro do Partido dos Trabalhadores, a partir de 2003, foi ter se recusado deliberadamente a promover a politização do povo. Toda a sua liderança sabia que a população brasileira, secularmente explorada pelas elites, era em sua esmagadora parcela politicamente analfabeta. Se não fosse realizada esta tarefa, se a grei fosse deixada à mercê de sua natural ignorância e ficasse desprotegida dos inevitáveis ataques da oposição, o resultado, mais cedo ou mais tarde, seria no mínimo a perda do apoio dos beneficiados pelas ações governamentais do PT, com outras graves consequências. Se se dispusesse a efetivar tal programação, o PT poderia contar com três mecanismos extraordinários, perfeitamente disponíveis e legais. Não utilizou nunca nenhum deles.
      Primeiro Mecanismo. Na Venezuela, Hugo Chávez usou intensamente três estações de TV do governo, para contrabalançar o poder da mídia televisiva privada de direita. No Brasil, o PT jamais fez uso político dos seus dois canais, NBR e TV Brasil. Ao longo dos últimos 13 anos, o que se viu foi um massacre da grande mídia em cima do PT, com um Governo Federal encastelado em si mesmo, sem nenhuma defesa, com exceção dos programas obrigatórios eleitorais a cada quatro anos. Durante todas as recentes crises, como a do julgamento do Mensalão pelo STF, a Jornada de Junho e o recente impeachment, a população brasileira viu-se privada de ser informada com relação ao contraditório, devido à omissão petista.
      Segundo mecanismo. Mesmo não usando as duas TVs estatais, o PT poderia, pelo menos, ter utilizado a internet. Nem isso ele fez. Não deu nenhum apoio logístico e financeiro aos blogueiros de esquerda, cujos sites foram a única fonte de informação mais confiável dos atos do PT. Além disso, Lula e Dilma não fizeram a Lei dos Meios e não deram um passo para enfrentar a grande mídia. Mas o pior de tudo é que o governo continuou a pagar publicidades milionárias nos veículos do PIG, principalmente a TV Globo.
      Terceiro mecanismo. Esta ideia é produto de minha exclusiva percepção, pois jamais li sobre ela em parte alguma. A estrutura do PT consta do Diretório e da Executiva nacionais, dos Diretórios Estaduais e dos Diretórios Municipais. O Partido se isolou no Palácio do Planalto e na sua direção nacional, divorciando-se de sua base. Poderia ter usado os Diretórios Municipais para garantir o sucesso permanente do programa partidário. Todos os membros do Partido, em seus municípios de residência, transformar-se-iam em agentes politizadores por excelência, conectados intimamente aos níveis do Estado e da União. É nas cidades que se travam as batalhas, é de lá que saem os votos, é nelas que as obras governamentais são aplicadas. Cada Diretório Municipal teria um papel dinâmico de co-gestor do projeto petista. Promoveria ciclos de estudos, debates públicos, atuação esclarecedora na mídia convencional local, e muitas outras atribuições junto à população, transformando a sede do partido numa extensão do Governo Federal. Desta forma, toda a militância, de norte a sul, em todos os Estados, seria envolvida num engajamento real e em sintonia plena com a liderança última, o Presidente, em Brasília. A base militante não ficaria, desta maneira, ociosa e abandonada. Este sentimento de isolamento com a cúpula partidária arrefeceu os ânimos da maior parte dos petistas, os quais se acovardaram perante as atitudes autocráticas de sua liderança nacional. Um potencial gigantesco de energia e trabalho foi simplesmente ignorado.
      A politização das massas é um projeto de governo de esquerda. Ao dar as costas a ela, o PT tornou público e notório que no fundo não é de esquerda, mas de direita. Como disse Frei Betto, ele pegou o violino com a mão esquerda e tocou com a direita. Esta politização poderia se estender desde a população mais miserável, passando pela classe C, podendo chegar até mesmo à classe média. Os líderes petistas se negaram de forma peremptória a mover uma palha no que tange à conscientização popular, acreditando na gratidão (votos) das massas engambeladas por seus programas sociais. Isto torna evidente que a principal preocupação da liderança do partido era o seu projeto de poder. Um genuíno partido de esquerda jamais faria isso. O Bolsa Família, a Minha Casa, Minha Vida, a Copa do Mundo, foram insuficientes, pois o povo precisava também de uma política sócio-cultural forte para que a sua alma fosse esclarecida, alimentada e fortalecida. O PT apostou tudo na conciliação com as forças retrógradas da elite burguesa e desprezou acintosamente as massas humildes que o colocaram no poder.
      Crítica do líder do MST, João Pedro Stédile, ao PT: “O maior partido da esquerda, com toda sua influência nas massas e nas organizações populares, abdicou de seu papel de organizador político e formador ideológico; resignou-se ao medíocre papel de disputar cargos públicos. Isso o esclerosou ideologicamente. Como é possível conceber um partido que tem 800 mil filiados, mas não tem cursos de formação política, não tem sequer um jornal nacional que oriente o debate e a militância?”
      O povo brasileiro, de forma geral, desconhece a malignidade dos tucanos (e milhares de outras coisas) porque foi esquecido e desprezado pela liderança petista, porque não foi politizado, porque foi influenciado diretamente apenas por um lado: o PIG. Fala-se muito numa “onda conservadora de direita”. Vulgarizaram-se os termos “coxinhas”, “alienados” e “fascistas”. Nada disso é real! Existe tão somente uma população duplamente desinformada, do trabalhador comum à classe média, primeiro pela omissão petista, depois pelas mentiras da elite.
      As manifestações de rua contra o impeachment foram feitas por sindicalistas, estudantes, integrantes politizados de minorias e cidadãos com um nível maior de politização. O povão trabalhador ficou longe delas. Estava ocupado demais sobrevivendo para engajar-se numa luta para a qual não foi instruído e nem conscientizado. O fracasso das mobilizações populares convocadas pela CUT e pela Frente Brasil Popular não é outra coisa senão o fracasso do PT. Desta forma, elas também são culpadas, por se atrelarem à cúpula petista e traírem a autêntica luta revolucionária. Até mesmo uma parcela da população mais pobre voltou-se contra o partido nos últimos tempos, atitude condizente com a sua orfandade política. A omissão do PT na politização popular e na sua autodefesa atingiu o máximo durante o show televisivo do “Mensalão”. O seu silêncio, a ausência de uma contestação veemente por parte do Governo Federal àquele “Mentirão”, insuflou nas massas a desconfiança e a suspeita. O termo “petralhas” se vulgarizou. Quem cala, não consente?!
      Frei Betto disse: “O PT abandonou seu projeto inicial na campanha de 2002, quando fez a opção de assegurar a governabilidade pelo mercado e pelo Congresso – daí as alianças e a ‘Carta aos Brasileiros’, que na verdade é a ‘carta aos banqueiros’. Ali, o PT abandona sua matéria-prima, que são os movimentos sociais pelos quais deveria ter assegurado a governabilidade, como fez Evo Morales na Bolívia, que não tinha apoio no congresso, se apoiou nos movimentos sociais e, através deles, conseguiu mudar o perfil do congresso. Hoje, ele tem apoio dos dois, é o presidente mais consolidado de toda essa safra progressista. O PT optou pelo mercado e pelo Congresso. Agora, está refém dos dois e pagando um preço muito alto.”
      O Poder Executivo petista nomeou Ministros do STF, Procuradores Gerais, Ministros de Estado e outros não alinhados com o ideário do partido, em função de uma falácia chamada “republicanismo”, denotando no mínimo ingenuidade. Dilma manteve no Ministério das Comunicações aquela falência humana chamada Paulo Bernardo por quatro longos anos. Nos Estados Unidos e países europeus o Presidente da República nomeia ministros da Suprema Corte e Procuradores de sua absoluta confiança, e demite-os sumariamente caso contrariem as orientações do governo. O PT fez nomeações absurdas para o STF e PGR, nomeados estes que viraram carrascos do partido, como o Joaquim Barbosa.
      Outra mancada foram as alianças com abomináveis figuras políticas, como o Sarney, em função da política pragmática da governabilidade a qualquer custo, que no final resultou catastrófica. “Foi Lula quem levou o PT a fazer alianças com os setores mais atrasados e anti-democráticos da política brasileira. Foi Lula no Maranhão quem desmontou o PT local para que fosse concretizada a aliança com a família feudal dos Sarney. Foi Lula em Alagoas que destituiu as lideranças petistas contrárias a Collor para que o PT apoiasse a sua candidatura ao governo do estado. Em São Paulo foi Lula quem buscou alianças com Maluff e Gilberto Kassab fazendo de tudo para isolar a esquerda petista em benefício dos seus interesses eleitoreiros e políticos. No Rio de Janeiro Lula agiu da mesma forma autoritária obrigando os diretórios estadual e municipal a se juntarem ao PMDB. Isso só para citar alguns exemplos nos estados onde o lulismo conseguiu desfigurar completamente o Partido dos Trabalhadores em prol de uma política que jamais beneficiaria a população ou o partido, mas que lhe traria dividendos políticos pessoais.”
      Se o PT tivesse assumido a politização das massas e a sua efetiva defesa contra os ataques que sofreu, se tivesse usado os três mecanismos, (TVs estatais, internet e Diretórios Municipais), se tivesse indicado nomes alinhados ao seu ideal político para os altos cargos, jamais teria sido alijado do Poder. O Brasil seria outro. A oposição estaria drasticamente reduzida no Judiciário, no Ministério Público, no Legislativo e até mesmo na mídia. Foi uma população totalmente despolitizada que elegeu os atuais membros do Congresso, aqueles que votaram em peso a favor do impeachment. Praticamente não existiria os “coxinhas”. A classe média estaria mais consciente dos avanços sócio-econômicos. E as bases para uma futura e autêntica revolução cultural estariam plantadas no País. O PT poderia pensar em se manter no Palácio do Planalto por muito tempo. Pelo contrário, o que temos hoje é o trágico fim de um Governo que se perdeu nos meandros e corredores do Poder. O que o PT fez, em última análise, foi MATAR A ESQUERDA. Não existe atenuante para isto.
      Enfim, o governo petista cometeu gravíssimos erros não se defendendo veementemente dos ataques sofridos, não fazendo publicidade de suas obras, distanciando-se da sociedade civil, portando-se de forma tão fraca e irresponsável que beirou a capitulação e a traição. Não é outra coisa senão suicídio político. Grandes reformas deixaram de ser feitas, como a eleitoral. A crise final do impeachment, subproduto das falhas petistas (80%) e da virulência elitista (20%), colocará na condução do país elementos os mais reacionários e corruptos possíveis. Tudo porque políticos com sólida formação marxista e esquerdista se contentaram com algumas medidas econômicas ortodoxas, achando que eram suficientes, num primor de incompetência, senão de deliberada desfaçatez.
      Faço estas críticas ao PT porque ele traiu o seu programa partidário original, burlou a sua base militante, ludibriou os setores progressistas e enganou o povo brasileiro. Sou contra porque SOU DE ESQUERDA. Os críticos do PT situados à direita (coxinhas, classe média, elite) não possuem nada em comum comigo. Também não significa que estou tentando minimizar a culpa dos golpistas, muito pelo contrário, pois merecem a mais rigorosa condenação. Mas é preciso que alguém exponha a verdade dos fatos, mesmo sendo insignificante como o autor destas linhas.
      Outra vez dou a palavra a Frei Betto: “O erro do Lula foi ter facilitado o acesso do povo a bens pessoais, e não a bens sociais – o contrário do que fez a Europa no começo do século 20, que primeiro deu acesso a educação, moradia, transporte e saúde, para então as pessoas chegarem aos bens pessoais. Aqui, não. Você vai a uma favela e as pessoas têm TV a cores, fogão, geladeira, microondas (graças à desoneração da linha branca), celular, computador e até um carrinho no pé do morro, mas estão morando na favela, não têm saneamento, educação de qualidade. É um governo que fez a inclusão econômica na base do consumismo e não fez inclusão política. As pessoas estavam consumindo, o dinheiro rolando e a inflação sob controle, mas não se criou sustentabilidade para isso. Agora a farra acabou, está na hora de pagar a conta.”
      O PT estabeleceu a dissociação entre a sua elite dirigente e a sua base militante. Ignorou o clamor das minorias. Ocultou a ação revolucionária no biombo de um desenvolvimentismo capitalista que satisfez todos os segmentos do status quo, dos banqueiros aos miseráveis (“todos lucraram”). O PT não colocou, pela primeira vez na história, um índio na Funai. O PT acreditou que a grande massa beneficiada por seus programas sociais ficaria eternamente grata pelo seu assistencialismo. O PT, nas crises agudas, sempre apelou para a força popular para não ser derrotado nos embates desta guerra das elites contra o povão, transferindo injustamente a sua histórica responsabilidade para os ombros da militância. Eu vejo os erros do PT quando me deparo com jovens vazios e imbecilizados. A culpa não é deles. Hugo Chávez distribuiu gratuitamente para o povo venezuelano um milhão de exemplares do “Dom Quixote”, de Cervantes. Isto é esquerda. Nós temos o “Grande Sertão: Veredas”, do Guimarães Rosa. Mas o PT não teve a coragem de Chávez.
      O dito Partido dos “Trabalhadores” traiu a classe operária. Autodenominando-se esquerdista, assumiu o poder em 2003 sem a menor intenção de fazer um governo realmente de esquerda. O PT ocupou um espaço revolucionário, fazendo de conta que iria transformar o país de forma estrutural, e acabou se revelando incompetente para tão alta tarefa. Agindo assim, destruiu quase quatro décadas de atuação revolucionária. Por sua vez, os blogues e sites pretensamente de esquerda (a chamada imprensa chapa branca, tida como progressista mas, na verdade, cooptada) são geridos por intelectuais também pretensamente de esquerda, como Paulo Henrique Amorim, Luiz Nassif, Emir Sader, Altamiro Borges e outros a endossarem a política direitista do PT, a não alertarem o público sobre a real natureza da mutreta petista e a se esquivarem a qualquer crítica e autocrítica. Alguns chegaram a abolir os comentários de leitores, quando aparecia algum “esquerdista radical”, como o “Carta Maior”.
      O PT se esclerosou no poder. Tornou-se um partido de massas estruturalmente falido, sem vitalidade intelectual. Burocratizou-se e rendeu-se à política mais mesquinha do toma-lá-dá-cá. Perdeu o vigor dos movimentos sociais, alguns dos quais cooptou, ignorando a sua maioria. Não realizou as muitas reivindicações populares. Revelou-se traidor, estelionatário e privatizador. Não fez reforma política séria, nem reforma tributária, nem reforma agrária, nem reforma urbana. A desculpa de que o Congresso era hostil não justifica tais omissões. Mas fez uma desastrosa reforma da Previdência. O PT foi, quando esteve no Governo, um ferrenho opositor das esquerdas autênticas e combativas, mais feroz até mesmo que o PSDB, pois trata-se de uma oposição de crítica e de princípios, e não de interesses.
      As palavras a seguir são de um sindicalista de esquerda experiente nas lides sindicais e foram escritas em 2014: “O PT nasceu nas greves e sabe muito bem como sufocar um movimento grevista e como combater um sindicato independente. E é isto o que o partido está fazendo, sobretudo no governo Dilma. Usam todo o tipo de manobra suja para minar o esforço de greve. Utilizam de todas as manobras para cansar, ludibriar, enervar, passar por cima dos sindicatos combativos e dos movimentos grevistas, com o apoio do sindicalismo cooptado, um desastre, a institucionalização da pelegagem. A ex-guerrilheira se recusa a receber sindicalista para negociar ou finge negociar só para posar para as fotos e pegar os dividendos políticos. O PT cooptou as grandes centrais sindicais e com a ajuda da CUT tem usado todos os truques sujos contra sindicatos livres, pois são ex-sindicalistas e sabem fazer isso muito bem. O Governo petista trata o funcionalismo público federal como um patrão ditatorial e de forma muito mais cruel do que o PSDB de FHC tratou, não porque estes fossem melhores, mas porque eram mais ingênuos e desconheciam o meio sindical. Muito mais duro é lidar com sindicalista traíra que explora as deficiências do movimento sindical por dentro, coopta a CUT e tenta solapar as novas centrais sindicais e partidos da esquerda combativa. Nos governos Lula e Dilma a CUT e outras centrais e sindicatos foram deliberadamente domesticados para evitar confrontos com os patrões e aplaudir, sem qualquer senso crítico, as ações do governo. Nunca o sindicalismo lutador sofreu um golpe tão duro, em todos os campos, quanto na era do PT no governo federal. O Partido dos Trabalhadores tem medo dos trabalhadores organizados e críticos. Esquerda respeita sindicato independente, não domestica central sindical e é justa com trabalhador, sertanejo, ribeirinho, índio e quilombola.”
      O PT governou 90% para a elite financeira, banqueiros, oligarcas, empreiteiras e latifundiários, os quais jamais perderam nada nos últimos 13 anos. O Lula mesmo disse que os bancos nunca lucraram tanto como na era PT. Concessões tributárias e previdenciárias foram feitas a setores empresariais sem retribuições para o mundo do trabalho. A usina de Belo Monte foi construída para satisfazer as exigências da família Sarney e os interesses das grandes construtoras e das multinacionais do alumínio de olho nas minas de Carajás, massacrando sem piedade comunidades indígenas e ribeirinhas próximas a Altamira, no Pará. Lula, que jamais foi socialista e nunca defendeu a preservação ambiental, tornou-se o garoto propaganda das grandes empreiteiras e do agronegócio brasileiros na África, pois é um porta-voz de peso e tido como defensor dos pobres. Neste sentido, o BRICS pode ser visto como o neo-imperialismo mundial, com a China, Brasil, etc., brigando por novos mecanismos de dominação nos mercados do hemisfério sul.
      O PT foi incapaz de se aliar à esquerda autêntica (ou melhor, à esquerda, pois é um partido de direita) para derrotar o projeto do Código Florestal da CNA – Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, abrindo as pernas para o grande capital da agroindústria. Apesar de estar comprometido com a preservação do nosso patrimônio ambiental, vendeu sua alma aos interesses dos barões pecuaristas. Nesta aliança com os ruralistas, Dilma sepultou a reforma agrária e esvaziou o Incra e a Funai. Além disso, o PT não fez nada para enfrentar a aristocracia financeira, submetendo-se servilmente ao Deus Mercado, na maior cara de pau. Dando isenção tributária a grupos poderosos e ao pagar a eterna e impagável dívida pública, dívida que tanto mais aumenta quanto mais é saldada, como todos os outros governos anteriores, só fez abarrotar o bolso já cheio da elite econômica.
      Lula tentou sem sucesso provar que era possível conciliar trabalho e capital. Não existe capitalismo “humano”: ele sempre será predador e monopolista. Na ideologia pseudo-distributiva do PT, os beneficiários do Bolsa Família receberam a sua pequena quota do orçamento, e foi feito um grande alarde propagandista desta boa ação. Mas o que não se propagou foram os beneficiários dos juros altos, os empréstimos do BNDES, as isenções fiscais, etc. O grosso da grana ia para a aristocracia financeira, sobrando as migalhas para os deserdados do Bolsa Família, de modo a mantê-los no cabresto eleitoral. Este programa é uma esmola estatal que a esquerda marxista sempre denunciou como uma contrarrevolucionária política compensatória ditada pelo Banco Mundial para controlar a luta de classes e impedir explosões sociais. O PT só beneficiou a população pobre e trabalhadora quando não precisou contrariar nenhum grande interesse. Promoveu a retirada de alguns milhões da extrema pobreza para lançá-los na pobreza, e aqueceu a economia para tirar outros milhões da pobreza para lançá-los no seio da classe média baixa. Fez um jogo capitalista, injetando dinheiro no mercado e formando uma legião de pequenos consumidores dos produtos fabricados pelos empresários. Benesses para todos! – era o lema petista. O Bolsa Família teria sido realmente nobre se fosse acompanhado de POLITIZAÇÃO. Aliás, não é um gesto assim tão grandiosamente humanitário como se pensa, pois é uma obrigação do Estado e os reais interesses por trás eram eleitoreiros.
      O PT privatizou 23 mil km de estradas federais (até 2013); 45 portos; 8 aeroportos; 7500 km de linha de transmissão (até 2013); usinas de geração de energia (aos chineses); Brasil Telecon; Estádios da Copa; Ferrovia Norte-Sul; Banco do Nordeste (agora banco misto); e Banco do Brasil (46% nas mãos dos acionistas). Tentou privatizar os Correios (MP 532/11) e terceirizou muitos de seus serviços. Instituiu milhares de PPPs (Parcerias Públicos Privadas) e terceirizações. Dilma colocou o banqueiro Joaquim Levy (um Chicago Boy) no Ministério da Fazenda e a líder do agronegócio Kátia Abreu (grande ruralista) no Ministério da Agricultura. Deu isenção de impostos a mega-empresários dos setores de automóveis e outros. Fez pouquíssima reforma agrária. Cortou o PIS e reduziu o Seguro Desemprego. Vetou a Auditoria da Dívida Pública e pagou fielmente o seu injusto e absurdo juro (47% de tudo o que é arrecadado). Quanto à Petrobrás, 49,7% está nas mãos dos acionistas. As suas contratações foram paradas para contratar 108 empreiteiras. O Pré-Sal foi leiloado. Estes leilões são uma forma de privatizar o petróleo, dando tudo de mão-beijada para as multinacionais, sem ser preciso privatizar a empresa. O que o Brasil lucrará com o Pré-Sal é uma ninharia. O Campo de Libra foi dado para os chineses. E tudo isto foi feito na “moita”, sem que o grosso da população tomasse conhecimento. Esta é, ou melhor, foi a especialidade do PT: promover a agenda da direita na surdina. Talvez não tenha sido pronunciada uma vez sequer, nos últimos 13 anos, pelos líderes petistas, a palavra “estatização”. Tudo isto é uma gigantesca e execrável traição à esquerda e ao socialismo, os quais defendem exatamente o oposto das privatizações, defende o patrimônio do povo.
      Em 13 anos, 4 meses e 11 dias no Poder, o Partido dos Trabalhadores conseguiu a façanha histórica de frustrar quase todas as esperanças que nele foram depositadas por 200 milhões de brasileiros. Foram exatos 4.880 dias se tornando cúmplice dos exploradores em vários sentidos, e isto vindo de um partido que se dizia de esquerda e que tinha a missão primordial de defender os explorados contra os opressores. O PT fez todo o tipo possível de concessões aos setores direitistas retrógrados e ortodoxos. Nascido no final da ditadura militar e composto originalmente por grandes nomes da esquerda e da intelligentsia nacional, muitos deles vítimas da brutalidade dos gestores do golpe de 1964, o PT não teve sequer a coragem de peitar os carrascos torturadores na pífia Comissão da Verdade, mesmo quando cortes internacionais de justiça o exigiam. O partido tinha uma pauta de modernização dos costumes, fim dos preconceitos e defesa das minorias sexuais, mas se absteve pois precisava dos votos da bancada dos evangélicos. Órgãos e autarquias foram ignorados, como Funai, Ibama e IBGE. Foi aprovada a lei antiterror, que pode criminalizar manifestantes que depredem patrimônio público. Enfim, de tanto jogar no lixo as suas bandeiras, o PT ficou no final sem nenhuma proposta positiva para conquistar os corações e as mentes dos eleitores, daí só lhe restando trunfos negativos como a satanização dos adversários.
      As informações acima são verídicas. Não se trata de calúnias da oposição. Foram retiradas na internet de fontes exclusivamente esquerdistas. Nunca leio nada escrito pela direita. A esta altura, o perplexo leitor deve estar com nó no cérebro. Poderia perguntar: Mas, e as obras positivas do PT? Realmente, como foi dito no início, somos obrigados a reconhecer que muita coisa boa foi feita, especialmente nos dois mandatos de Lula. Como o governo FHC foi péssimo, o do PT pode parecer, em contraposição e enganosamente, excelente. Mas não devemos supervalorizar a administração petista. Sendo de esquerda, o PT era OBRIGADO a fazer alguma coisa, não poderia ser um repeteco dos tucanos. Porém, o que ele deixou de fazer (politização, autodefesa, mídia, etc.) e o que ele fez de modo oculto (neoliberalismo, privatizações, etc.) depõe contrariamente de forma arrasadora. Pior do que o lobo em si, é o lobo em pele de ovelha. Os setores elitistas e conservadores não mascaram suas intenções, todos sabem do que são capazes. Entretanto, a cúpula petista não correspondeu às expectativas que o povo nutria, ao dar-lhe carta branca nas últimas quatro eleições. O que o PT fez com as mãos, desmanchou com os pés. Recomendo ao leitor que se liberte de ideias preconcebidas e de paixões políticas e faça um exame honesto e sensato dos fatos.
      Fora do poder, o PT fará oposição ao governo de Michel Temer. Lula e a cúpula do partido manterão a mesma imagem original de oposição esquerdista, como fazia até 2002, sem a mínima autocrítica e nenhuma vergonha na cara. Sendo assim, o PT inaugurará a sua terceira fase de enganos e farsas: a primeira de 1980 a 2002; a segunda de 2003 a 2016; e a terceira de agora em diante. O povo iludido contará com “Lula 2018”. Mas ele será preso, processado e condenado. Jamais permitirão que se candidate novamente, nem que seja preciso eliminá-lo. A extrema-direita PMDB-PSDB dificilmente largará o osso. E esta eliminação do “Pai dos Pobres”, o seu patético ostracismo, para a esquerda é ótimo, posto que assim o PT não continuará a sua obra nefasta de destruição dos setores realmente progressistas. Somente desta forma o país poderá construir livremente, nos anos seguintes, uma AUTÊNTICA MILITÂNCIA ESQUERDISTA a partir de sua juventude atual. O PT se esgotou, não tem mais defesa ou credibilidade. Será preciso começar a agir desde já para reconstruir a esquerda fora do vácuo petista, sem a ilusão de que está do nosso lado, ou seja, do povo. Não há nenhum tempo para se perder um tempo precioso, pois será uma luta de pelo menos duas décadas para reerguer a cabeça da esquerda, destroçada pelo PT.
      É óbvio que o PT lançará um candidato nas eleições de 2018, seja qual for. Votar nele significará a continuação de tudo o que foi exposto acima. Não é uma boa ideia. O bom senso diz que é preciso fortalecer os partidos de esquerda, como PCdoB, PCO, PSTU e PSOL, já em 2016. Esta é uma boa ideia. Todavia, é bom lembrar que qualquer um destes quatro partidos, chegando no poder num futuro distante, fará o mesmo que fez o PT, inevitavelmente. O que significa que a via político-eleitoral-democrática não é a melhor solução. A grande ideia é a POLITIZAÇÃO DO POVO ao longo das décadas seguintes, efetuada POR ELE MESMO, (não de cima para baixo), através de suas inúmeras organizações como entidades estudantis, grupos anarquistas, sindicatos livres, minorias, camponeses, associações, enfim, todo o conjunto que forma a sua imensa base social, desligada completamente do poder público e dos grupos econômicos de qualquer nível ou escala. Somente quando o povo possuir uma razoável compreensão do seu poder natural e inerente, será possível dar início à VERDADEIRA REVOLUÇÃO. Se esta politização não for feita, se a massa permanecer na sua habitual ignorância, na sua eterna inércia, se nada for feito para tentar despertá-la de seu torpor, o jogo tenderá SEMPRE para o lado das elites que detém o poder político, econômico, jurídico, eleitoral, midiático, policial e repressor. A única salvação para o povo é ELE MESMO. Esta é a visão mais avançada da esquerda mundial.
      Desejo a todos uma LONGA LUTA!...

      Marcos Nunes Filho – Muriaé/MG – Maio de 2016.

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