O texto a seguir é uma síntese das 91
partes anteriores. Para que a análise permanecesse a mais abrangente possível e
não sofresse com a exiguidade, fui obrigado a ser prolixo.
CRÍTICA
DO PT POR
UM PETISTA
Acompanhando na internet os fatos desde
2010, e com mais assiduidade desde 2014, foram raríssimos os textos críticos
que li com relação ao Lula, à Dilma e ao Partido dos Trabalhadores.
Praticamente só existiu no meio virtual a condenação da extrema-direita, como
se esta fosse a única responsável pela crise política. Não é. Os erros
cometidos pelo PT foram tantos e tão graves que a ele pode ser imputada uma
grande parcela de responsabilidade na tragédia que culminou neste 11 de maio de
2016, com a perda do Governo Federal. Apontar tais erros é o objetivo deste
texto. Recomendo com veemência que seja lido até o final, apesar de ser
extenso, mesmo porque o leitor jamais encontrará algo semelhante em parte
alguma, disso tenho absoluta certeza.
O governo do FHC, de 1995 a 2002,
privatizou várias estatais a preço de banana, não realizou nenhuma obra,
recorreu três vezes ao FMI, arrochou salários, provocou miséria, fome e mortes
na população mais pobre e instaurou uma forte recessão econômica, com juros
altos e altas taxas de desemprego, dentre inúmeros outros grandes danos
provocados ao país. Mas o pior de tudo foi a roubalheira desenfreada em cima do
erário público, com bilhões de reais sendo desviados para contas particulares
em paraísos fiscais, beneficiando centenas de autênticos bandidos disfarçados
de políticos, revelada no livro “A Privataria Tucana”, de Amaury Ribeiro Júnior.
Após este caos neoliberal, a partir de 2003 Lula conseguiu reverter o quadro
distribuindo renda para a população carente, criando vários programas sociais,
dinamizando a economia, pagando a dívida externa, realizando inúmeras obras em
todo o Brasil, colocando o desemprego em níveis baixos, escapando da crise
financeira internacional, aumentando salários, aderindo ao bloco do BRICS e
retirando milhões de pessoas da linha da miséria, dentre outras louváveis
realizações.
Com uma sólida formação política, toda a
liderança petista percebia, nos primórdios do partido, que a construção de um projeto
progressista e revolucionário, a médio e longo prazo, tinha de levar em conta,
de modo incondicional, a politização das massas e a valorização de todos os
movimentos sociais. Afinal de contas, o PT era de esquerda e arcava com a
imensa responsabilidade de governar realmente EM NOME do povo e PARA o povo, na
frágil democracia brasileira. Bastava apenas instaurar um autêntico
capitalismo, sem o arrombamento dos cofres públicos, num modelo econômico
ortodoxo, mas comendo pelas beiras, na construção revolucionária de um socialismo
“social”, de cunho popular, preparando a sociedade para futuras conquistas humanistas,
posto que o homem, cada cidadão, é o verdadeiro gestor desta abstração chamada
Nação.
O principal erro do Partido dos
Trabalhadores, a partir de 2003, foi ter se recusado deliberadamente a promover
a politização do povo. Toda a sua liderança sabia que a população brasileira,
secularmente explorada pelas elites, era em sua esmagadora parcela politicamente
analfabeta. Se não fosse realizada esta tarefa, se a grei fosse deixada à mercê
de sua natural ignorância e ficasse desprotegida dos inevitáveis ataques da
oposição, o resultado, mais cedo ou mais tarde, seria no mínimo a perda do
apoio dos beneficiados pelas ações governamentais do PT, com outras graves
consequências. Se se dispusesse a efetivar tal programação, o PT poderia contar
com três mecanismos extraordinários, perfeitamente disponíveis e legais. Não
utilizou nunca nenhum deles.
Primeiro Mecanismo. Na Venezuela, Hugo
Chávez usou intensamente três estações de TV do governo, para contrabalançar o
poder da mídia televisiva privada de direita. No Brasil, o PT jamais fez uso
político dos seus dois canais, NBR e TV Brasil. Ao longo dos últimos 13 anos, o
que se viu foi um massacre da grande mídia em cima do PT, com um Governo
Federal encastelado em si mesmo, sem nenhuma defesa, com exceção dos programas
obrigatórios eleitorais a cada quatro anos. Durante todas as recentes crises,
como a do julgamento do Mensalão pelo STF, a Jornada de Junho e o recente
impeachment, a população brasileira viu-se privada de ser informada com relação
ao contraditório, devido à omissão petista.
Segundo mecanismo. Mesmo não usando as
duas TVs estatais, o PT poderia, pelo menos, ter utilizado a internet. Nem isso
ele fez. Não deu nenhum apoio logístico e financeiro aos blogueiros de
esquerda, cujos sites foram a única fonte de informação mais confiável dos atos
do PT. Além disso, Lula e Dilma não fizeram a Lei dos Meios e não deram um
passo para enfrentar a grande mídia. Mas o pior de tudo é que o governo continuou
a pagar publicidades milionárias nos veículos do PIG, principalmente a TV
Globo.
Terceiro mecanismo. Esta ideia é produto
de minha exclusiva percepção, pois jamais li sobre ela em parte alguma. A
estrutura do PT consta do Diretório e da Executiva nacionais, dos Diretórios
Estaduais e dos Diretórios Municipais. O Partido se isolou no Palácio do
Planalto e na sua direção nacional, divorciando-se de sua base. Poderia ter
usado os Diretórios Municipais para garantir o sucesso permanente do programa
partidário. Todos os membros do Partido, em seus municípios de residência,
transformar-se-iam em agentes politizadores por excelência, conectados
intimamente aos níveis do Estado e da União. É nas cidades que se travam as
batalhas, é de lá que saem os votos, é nelas que as obras governamentais são
aplicadas. Cada Diretório Municipal teria um papel dinâmico de co-gestor do
projeto petista. Promoveria ciclos de estudos, debates públicos, atuação esclarecedora
na mídia convencional local, e muitas outras atribuições junto à população,
transformando a sede do partido numa extensão do Governo Federal. Desta forma,
toda a militância, de norte a sul, em todos os Estados, seria envolvida num engajamento
real e em sintonia plena com a liderança última, o Presidente, em Brasília. A
base militante não ficaria, desta maneira, ociosa e abandonada. Este sentimento
de isolamento com a cúpula partidária arrefeceu os ânimos da maior parte dos
petistas, os quais se acovardaram perante as atitudes autocráticas de sua
liderança nacional. Um potencial gigantesco de energia e trabalho foi simplesmente
ignorado.
A politização das massas é um projeto de governo
de esquerda. Ao dar as costas a ela, o PT tornou público e notório que no fundo
não é de esquerda, mas de direita. Como disse Frei Betto, ele pegou o violino
com a mão esquerda e tocou com a direita. Esta politização poderia se estender
desde a população mais miserável, passando pela classe C, podendo chegar até mesmo
à classe média. Os líderes petistas se negaram de forma peremptória a mover uma
palha no que tange à conscientização popular, acreditando na gratidão (votos)
das massas engambeladas por seus programas sociais. Isto torna evidente que a
principal preocupação da liderança do partido era o seu projeto de poder. Um
genuíno partido de esquerda jamais faria isso. O Bolsa Família, a Minha Casa,
Minha Vida, a Copa do Mundo, foram insuficientes, pois o povo precisava também
de uma política sócio-cultural forte para que a sua alma fosse esclarecida,
alimentada e fortalecida. O PT apostou tudo na conciliação com as forças
retrógradas da elite burguesa e desprezou acintosamente as massas humildes que
o colocaram no poder.
Crítica do líder do MST, João Pedro Stédile,
ao PT: “O maior partido da esquerda, com toda sua influência nas massas e nas
organizações populares, abdicou de seu papel de organizador político e formador
ideológico; resignou-se ao medíocre papel de disputar cargos públicos. Isso o
esclerosou ideologicamente. Como é possível conceber um partido que tem 800 mil
filiados, mas não tem cursos de formação política, não tem sequer um jornal
nacional que oriente o debate e a militância?”
O povo brasileiro, de forma geral,
desconhece a malignidade dos tucanos (e milhares de outras coisas) porque foi esquecido
e desprezado pela liderança petista, porque não foi politizado, porque foi
influenciado diretamente apenas por um lado: o PIG. Fala-se muito numa “onda
conservadora de direita”. Vulgarizaram-se os termos “coxinhas”, “alienados” e
“fascistas”. Nada disso é real! Existe tão somente uma população duplamente
desinformada, do trabalhador comum à classe média, primeiro pela omissão
petista, depois pelas mentiras da elite.
As manifestações de rua contra o
impeachment foram feitas por sindicalistas, estudantes, integrantes politizados
de minorias e cidadãos com um nível maior de politização. O povão trabalhador ficou
longe delas. Estava ocupado demais sobrevivendo para engajar-se numa luta para
a qual não foi instruído e nem conscientizado. O fracasso das mobilizações
populares convocadas pela CUT e pela Frente Brasil Popular não é outra coisa
senão o fracasso do PT. Desta forma, elas também são culpadas, por se atrelarem
à cúpula petista e traírem a autêntica luta revolucionária. Até mesmo uma
parcela da população mais pobre voltou-se contra o partido nos últimos tempos,
atitude condizente com a sua orfandade política. A omissão do PT na politização
popular e na sua autodefesa atingiu o máximo durante o show televisivo do
“Mensalão”. O seu silêncio, a ausência de uma contestação veemente por parte do
Governo Federal àquele “Mentirão”, insuflou nas massas a desconfiança e a
suspeita. O termo “petralhas” se vulgarizou. Quem cala, não consente?!
Frei Betto disse: “O PT abandonou seu
projeto inicial na campanha de 2002, quando fez a opção de assegurar a
governabilidade pelo mercado e pelo Congresso – daí as alianças e a ‘Carta aos
Brasileiros’, que na verdade é a ‘carta aos banqueiros’. Ali, o PT abandona sua
matéria-prima, que são os movimentos sociais pelos quais deveria ter assegurado
a governabilidade, como fez Evo Morales na Bolívia, que não tinha apoio no
congresso, se apoiou nos movimentos sociais e, através deles, conseguiu mudar o
perfil do congresso. Hoje, ele tem apoio dos dois, é o presidente mais
consolidado de toda essa safra progressista. O PT optou pelo mercado e pelo
Congresso. Agora, está refém dos dois e pagando um preço muito alto.”
O Poder Executivo petista nomeou
Ministros do STF, Procuradores Gerais, Ministros de Estado e outros não
alinhados com o ideário do partido, em função de uma falácia chamada
“republicanismo”, denotando no mínimo ingenuidade. Dilma manteve no Ministério
das Comunicações aquela falência humana chamada Paulo Bernardo por quatro
longos anos. Nos Estados Unidos e países europeus o Presidente da República
nomeia ministros da Suprema Corte e Procuradores de sua absoluta confiança, e
demite-os sumariamente caso contrariem as orientações do governo. O PT fez
nomeações absurdas para o STF e PGR, nomeados estes que viraram carrascos do
partido, como o Joaquim Barbosa.
Outra mancada foram as alianças com abomináveis
figuras políticas, como o Sarney, em função da política pragmática da governabilidade
a qualquer custo, que no final resultou catastrófica. “Foi Lula quem levou o PT
a fazer alianças com os setores mais atrasados e anti-democráticos da política
brasileira. Foi Lula no Maranhão quem desmontou o PT local para que fosse
concretizada a aliança com a família feudal dos Sarney. Foi Lula em Alagoas que
destituiu as lideranças petistas contrárias a Collor para que o PT apoiasse a
sua candidatura ao governo do estado. Em São Paulo foi Lula quem buscou
alianças com Maluff e Gilberto Kassab fazendo de tudo para isolar a esquerda
petista em benefício dos seus interesses eleitoreiros e políticos. No Rio de
Janeiro Lula agiu da mesma forma autoritária obrigando os diretórios estadual e
municipal a se juntarem ao PMDB. Isso só para citar alguns exemplos nos estados
onde o lulismo conseguiu desfigurar completamente o Partido dos Trabalhadores
em prol de uma política que jamais beneficiaria a população ou o partido, mas
que lhe traria dividendos políticos pessoais.”
Se o PT tivesse assumido a politização
das massas e a sua efetiva defesa contra os ataques que sofreu, se tivesse
usado os três mecanismos, (TVs estatais, internet e Diretórios Municipais), se
tivesse indicado nomes alinhados ao seu ideal político para os altos cargos, jamais
teria sido alijado do Poder. O Brasil seria outro. A oposição estaria
drasticamente reduzida no Judiciário, no Ministério Público, no Legislativo e até
mesmo na mídia. Foi uma população totalmente despolitizada que elegeu os atuais
membros do Congresso, aqueles que votaram em peso a favor do impeachment.
Praticamente não existiria os “coxinhas”. A classe média estaria mais
consciente dos avanços sócio-econômicos. E as bases para uma futura e autêntica
revolução cultural estariam plantadas no País. O PT poderia pensar em se manter
no Palácio do Planalto por muito tempo. Pelo contrário, o que temos hoje é o trágico
fim de um Governo que se perdeu nos meandros e corredores do Poder. O que o PT
fez, em última análise, foi MATAR A ESQUERDA. Não existe atenuante para isto.
Enfim, o governo petista cometeu
gravíssimos erros não se defendendo veementemente dos ataques sofridos, não
fazendo publicidade de suas obras, distanciando-se da sociedade civil,
portando-se de forma tão fraca e irresponsável que beirou a capitulação e a
traição. Não é outra coisa senão suicídio político. Grandes reformas deixaram
de ser feitas, como a eleitoral. A crise final do impeachment, subproduto das
falhas petistas (80%) e da virulência elitista (20%), colocará na condução do
país elementos os mais reacionários e corruptos possíveis. Tudo porque
políticos com sólida formação marxista e esquerdista se contentaram com algumas
medidas econômicas ortodoxas, achando que eram suficientes, num primor de incompetência,
senão de deliberada desfaçatez.
Faço estas críticas ao PT porque ele
traiu o seu programa partidário original, burlou a sua base militante,
ludibriou os setores progressistas e enganou o povo brasileiro. Sou contra
porque SOU DE ESQUERDA. Os críticos do PT situados à direita (coxinhas, classe
média, elite) não possuem nada em comum comigo. Também não significa que estou
tentando minimizar a culpa dos golpistas, muito pelo contrário, pois merecem a
mais rigorosa condenação. Mas é preciso que alguém exponha a verdade dos fatos,
mesmo sendo insignificante como o autor destas linhas.
Outra vez dou a palavra a Frei Betto: “O
erro do Lula foi ter facilitado o acesso do povo a bens pessoais, e não a bens
sociais – o contrário do que fez a Europa no começo do século 20, que primeiro
deu acesso a educação, moradia, transporte e saúde, para então as pessoas
chegarem aos bens pessoais. Aqui, não. Você vai a uma favela e as pessoas têm
TV a cores, fogão, geladeira, microondas (graças à desoneração da linha
branca), celular, computador e até um carrinho no pé do morro, mas estão
morando na favela, não têm saneamento, educação de qualidade. É um governo que
fez a inclusão econômica na base do consumismo e não fez inclusão política. As
pessoas estavam consumindo, o dinheiro rolando e a inflação sob controle, mas
não se criou sustentabilidade para isso. Agora a farra acabou, está na hora de
pagar a conta.”
O PT estabeleceu a dissociação entre a
sua elite dirigente e a sua base militante. Ignorou o clamor das minorias.
Ocultou a ação revolucionária no biombo de um desenvolvimentismo capitalista que
satisfez todos os segmentos do status quo, dos banqueiros aos miseráveis
(“todos lucraram”). O PT não colocou, pela primeira vez na história, um índio
na Funai. O PT acreditou que a grande massa beneficiada por seus programas
sociais ficaria eternamente grata pelo seu assistencialismo. O PT, nas crises
agudas, sempre apelou para a força popular para não ser derrotado nos embates
desta guerra das elites contra o povão, transferindo injustamente a sua
histórica responsabilidade para os ombros da militância. Eu vejo os erros do PT
quando me deparo com jovens vazios e imbecilizados. A culpa não é deles. Hugo
Chávez distribuiu gratuitamente para o povo venezuelano um milhão de exemplares
do “Dom Quixote”, de Cervantes. Isto é esquerda. Nós temos o “Grande Sertão:
Veredas”, do Guimarães Rosa. Mas o PT não teve a coragem de Chávez.
O dito Partido dos “Trabalhadores” traiu
a classe operária. Autodenominando-se esquerdista, assumiu o poder em 2003 sem
a menor intenção de fazer um governo realmente de esquerda. O PT ocupou um
espaço revolucionário, fazendo de conta que iria transformar o país de forma
estrutural, e acabou se revelando incompetente para tão alta tarefa. Agindo
assim, destruiu quase quatro décadas de atuação revolucionária. Por sua vez, os
blogues e sites pretensamente de esquerda (a chamada imprensa chapa branca,
tida como progressista mas, na verdade, cooptada) são geridos por intelectuais também
pretensamente de esquerda, como Paulo Henrique Amorim, Luiz Nassif, Emir Sader,
Altamiro Borges e outros a endossarem a política direitista do PT, a não
alertarem o público sobre a real natureza da mutreta petista e a se esquivarem
a qualquer crítica e autocrítica. Alguns chegaram a abolir os comentários de leitores,
quando aparecia algum “esquerdista radical”, como o “Carta Maior”.
O PT se esclerosou no poder. Tornou-se um
partido de massas estruturalmente falido, sem vitalidade intelectual.
Burocratizou-se e rendeu-se à política mais mesquinha do toma-lá-dá-cá. Perdeu
o vigor dos movimentos sociais, alguns dos quais cooptou, ignorando a sua
maioria. Não realizou as muitas reivindicações populares. Revelou-se traidor,
estelionatário e privatizador. Não fez reforma política séria, nem reforma
tributária, nem reforma agrária, nem reforma urbana. A desculpa de que o
Congresso era hostil não justifica tais omissões. Mas fez uma desastrosa
reforma da Previdência. O PT foi, quando esteve no Governo, um ferrenho
opositor das esquerdas autênticas e combativas, mais feroz até mesmo que o
PSDB, pois trata-se de uma oposição de crítica e de princípios, e não de
interesses.
As palavras a seguir são de um
sindicalista de esquerda experiente nas lides sindicais e foram escritas em
2014: “O PT nasceu nas greves e sabe muito bem como sufocar um movimento
grevista e como combater um sindicato independente. E é isto o que o partido
está fazendo, sobretudo no governo Dilma. Usam todo o tipo de manobra suja para
minar o esforço de greve. Utilizam de todas as manobras para cansar, ludibriar,
enervar, passar por cima dos sindicatos combativos e dos movimentos grevistas,
com o apoio do sindicalismo cooptado, um desastre, a institucionalização da
pelegagem. A ex-guerrilheira se recusa a receber sindicalista para negociar ou
finge negociar só para posar para as fotos e pegar os dividendos políticos. O
PT cooptou as grandes centrais sindicais e com a ajuda da CUT tem usado todos
os truques sujos contra sindicatos livres, pois são ex-sindicalistas e sabem
fazer isso muito bem. O Governo petista trata o funcionalismo público federal
como um patrão ditatorial e de forma muito mais cruel do que o PSDB de FHC
tratou, não porque estes fossem melhores, mas porque eram mais ingênuos e
desconheciam o meio sindical. Muito mais duro é lidar com sindicalista traíra
que explora as deficiências do movimento sindical por dentro, coopta a CUT e
tenta solapar as novas centrais sindicais e partidos da esquerda combativa. Nos
governos Lula e Dilma a CUT e outras centrais e sindicatos foram deliberadamente
domesticados para evitar confrontos com os patrões e aplaudir, sem qualquer
senso crítico, as ações do governo. Nunca o sindicalismo lutador sofreu um
golpe tão duro, em todos os campos, quanto na era do PT no governo federal. O
Partido dos Trabalhadores tem medo dos trabalhadores organizados e críticos.
Esquerda respeita sindicato independente, não domestica central sindical e é
justa com trabalhador, sertanejo, ribeirinho, índio e quilombola.”
O PT governou 90% para a elite
financeira, banqueiros, oligarcas, empreiteiras e latifundiários, os quais
jamais perderam nada nos últimos 13 anos. O Lula mesmo disse que os bancos
nunca lucraram tanto como na era PT. Concessões tributárias e previdenciárias
foram feitas a setores empresariais sem retribuições para o mundo do trabalho.
A usina de Belo Monte foi construída para satisfazer as exigências da família
Sarney e os interesses das grandes construtoras e das multinacionais do
alumínio de olho nas minas de Carajás, massacrando sem piedade comunidades
indígenas e ribeirinhas próximas a Altamira, no Pará. Lula, que jamais foi
socialista e nunca defendeu a preservação ambiental, tornou-se o garoto
propaganda das grandes empreiteiras e do agronegócio brasileiros na África,
pois é um porta-voz de peso e tido como defensor dos pobres. Neste sentido, o
BRICS pode ser visto como o neo-imperialismo mundial, com a China, Brasil,
etc., brigando por novos mecanismos de dominação nos mercados do hemisfério
sul.
O PT foi incapaz de se aliar à esquerda
autêntica (ou melhor, à esquerda, pois é um partido de direita) para derrotar o
projeto do Código Florestal da CNA – Confederação da Agricultura e Pecuária do
Brasil, abrindo as pernas para o grande capital da agroindústria. Apesar de
estar comprometido com a preservação do nosso patrimônio ambiental, vendeu sua
alma aos interesses dos barões pecuaristas. Nesta aliança com os ruralistas,
Dilma sepultou a reforma agrária e esvaziou o Incra e a Funai. Além disso, o PT
não fez nada para enfrentar a aristocracia financeira, submetendo-se
servilmente ao Deus Mercado, na maior cara de pau. Dando isenção tributária a
grupos poderosos e ao pagar a eterna e impagável dívida pública, dívida que
tanto mais aumenta quanto mais é saldada, como todos os outros governos anteriores,
só fez abarrotar o bolso já cheio da elite econômica.
Lula tentou sem sucesso provar que era
possível conciliar trabalho e capital. Não existe capitalismo “humano”: ele
sempre será predador e monopolista. Na ideologia pseudo-distributiva do PT, os
beneficiários do Bolsa Família receberam a sua pequena quota do orçamento, e
foi feito um grande alarde propagandista desta boa ação. Mas o que não se
propagou foram os beneficiários dos juros altos, os empréstimos do BNDES, as
isenções fiscais, etc. O grosso da grana ia para a aristocracia financeira,
sobrando as migalhas para os deserdados do Bolsa Família, de modo a mantê-los
no cabresto eleitoral. Este programa é uma esmola estatal que a esquerda
marxista sempre denunciou como uma contrarrevolucionária política compensatória
ditada pelo Banco Mundial para controlar a luta de classes e impedir explosões
sociais. O PT só beneficiou a população pobre e trabalhadora quando não
precisou contrariar nenhum grande interesse. Promoveu a retirada de alguns milhões
da extrema pobreza para lançá-los na pobreza, e aqueceu a economia para tirar
outros milhões da pobreza para lançá-los no seio da classe média baixa. Fez um
jogo capitalista, injetando dinheiro no mercado e formando uma legião de
pequenos consumidores dos produtos fabricados pelos empresários. Benesses para
todos! – era o lema petista. O Bolsa Família teria sido realmente nobre se
fosse acompanhado de POLITIZAÇÃO. Aliás, não é um gesto assim tão
grandiosamente humanitário como se pensa, pois é uma obrigação do Estado e os
reais interesses por trás eram eleitoreiros.
O PT privatizou 23 mil km de estradas
federais (até 2013); 45 portos; 8 aeroportos; 7500 km de linha de transmissão
(até 2013); usinas de geração de energia (aos chineses); Brasil Telecon;
Estádios da Copa; Ferrovia Norte-Sul; Banco do Nordeste (agora banco misto); e
Banco do Brasil (46% nas mãos dos acionistas). Tentou privatizar os Correios
(MP 532/11) e terceirizou muitos de seus serviços. Instituiu milhares de PPPs
(Parcerias Públicos Privadas) e terceirizações. Dilma colocou o banqueiro
Joaquim Levy (um Chicago Boy) no Ministério da Fazenda e a líder do agronegócio
Kátia Abreu (grande ruralista) no Ministério da Agricultura. Deu isenção de
impostos a mega-empresários dos setores de automóveis e outros. Fez pouquíssima
reforma agrária. Cortou o PIS e reduziu o Seguro Desemprego. Vetou a Auditoria
da Dívida Pública e pagou fielmente o seu injusto e absurdo juro (47% de tudo o
que é arrecadado). Quanto à Petrobrás, 49,7% está nas mãos dos acionistas. As
suas contratações foram paradas para contratar 108 empreiteiras. O Pré-Sal foi
leiloado. Estes leilões são uma forma de privatizar o petróleo, dando tudo de
mão-beijada para as multinacionais, sem ser preciso privatizar a empresa. O que
o Brasil lucrará com o Pré-Sal é uma ninharia. O Campo de Libra foi dado para
os chineses. E tudo isto foi feito na “moita”, sem que o grosso da população
tomasse conhecimento. Esta é, ou melhor, foi a especialidade do PT: promover a
agenda da direita na surdina. Talvez não tenha sido pronunciada uma vez sequer,
nos últimos 13 anos, pelos líderes petistas, a palavra “estatização”. Tudo isto
é uma gigantesca e execrável traição à esquerda e ao socialismo, os quais
defendem exatamente o oposto das privatizações, defende o patrimônio do povo.
Em 13 anos, 4 meses e 11 dias no Poder, o
Partido dos Trabalhadores conseguiu a façanha histórica de frustrar quase todas
as esperanças que nele foram depositadas por 200 milhões de brasileiros. Foram
exatos 4.880 dias se tornando cúmplice dos exploradores em vários sentidos, e
isto vindo de um partido que se dizia de esquerda e que tinha a missão
primordial de defender os explorados contra os opressores. O PT fez todo o tipo
possível de concessões aos setores direitistas retrógrados e ortodoxos. Nascido
no final da ditadura militar e composto originalmente por grandes nomes da
esquerda e da intelligentsia nacional, muitos deles vítimas da brutalidade dos
gestores do golpe de 1964, o PT não teve sequer a coragem de peitar os
carrascos torturadores na pífia Comissão da Verdade, mesmo quando cortes
internacionais de justiça o exigiam. O partido tinha uma pauta de modernização
dos costumes, fim dos preconceitos e defesa das minorias sexuais, mas se
absteve pois precisava dos votos da bancada dos evangélicos. Órgãos e
autarquias foram ignorados, como Funai, Ibama e IBGE. Foi aprovada a lei
antiterror, que pode criminalizar manifestantes que depredem patrimônio
público. Enfim, de tanto jogar no lixo as suas bandeiras, o PT ficou no final
sem nenhuma proposta positiva para conquistar os corações e as mentes dos
eleitores, daí só lhe restando trunfos negativos como a satanização dos
adversários.
As informações acima são verídicas. Não
se trata de calúnias da oposição. Foram retiradas na internet de fontes
exclusivamente esquerdistas. Nunca leio nada escrito pela direita. A esta
altura, o perplexo leitor deve estar com nó no cérebro. Poderia perguntar: Mas,
e as obras positivas do PT? Realmente, como foi dito no início, somos obrigados
a reconhecer que muita coisa boa foi feita, especialmente nos dois mandatos de
Lula. Como o governo FHC foi péssimo, o do PT pode parecer, em contraposição e
enganosamente, excelente. Mas não devemos supervalorizar a administração
petista. Sendo de esquerda, o PT era OBRIGADO a fazer alguma coisa, não poderia
ser um repeteco dos tucanos. Porém, o que ele deixou de fazer (politização,
autodefesa, mídia, etc.) e o que ele fez de modo oculto (neoliberalismo,
privatizações, etc.) depõe contrariamente de forma arrasadora. Pior do que o
lobo em si, é o lobo em pele de ovelha. Os setores elitistas e conservadores
não mascaram suas intenções, todos sabem do que são capazes. Entretanto, a
cúpula petista não correspondeu às expectativas que o povo nutria, ao dar-lhe
carta branca nas últimas quatro eleições. O que o PT fez com as mãos,
desmanchou com os pés. Recomendo ao leitor que se liberte de ideias
preconcebidas e de paixões políticas e faça um exame honesto e sensato dos
fatos.
Fora do poder, o PT fará oposição ao
governo de Michel Temer. Lula e a cúpula do partido manterão a mesma imagem
original de oposição esquerdista, como fazia até 2002, sem a mínima autocrítica
e nenhuma vergonha na cara. Sendo assim, o PT inaugurará a sua terceira fase de
enganos e farsas: a primeira de 1980 a 2002; a segunda de 2003 a 2016; e a
terceira de agora em diante. O povo iludido contará com “Lula 2018”. Mas ele
será preso, processado e condenado. Jamais permitirão que se candidate
novamente, nem que seja preciso eliminá-lo. A extrema-direita PMDB-PSDB
dificilmente largará o osso. E esta eliminação do “Pai dos Pobres”, o seu
patético ostracismo, para a esquerda é ótimo, posto que assim o PT não
continuará a sua obra nefasta de destruição dos setores realmente progressistas.
Somente desta forma o país poderá construir livremente, nos anos seguintes, uma
AUTÊNTICA MILITÂNCIA ESQUERDISTA a partir de sua juventude atual. O PT se
esgotou, não tem mais defesa ou credibilidade. Será preciso começar a agir
desde já para reconstruir a esquerda fora do vácuo petista, sem a ilusão de que
está do nosso lado, ou seja, do povo. Não há nenhum tempo para se perder um
tempo precioso, pois será uma luta de pelo menos duas décadas para reerguer a
cabeça da esquerda, destroçada pelo PT.
É
óbvio que o PT lançará um candidato nas eleições de 2018, seja qual for. Votar
nele significará a continuação de tudo o que foi exposto acima. Não é uma boa
ideia. O bom senso diz que é preciso fortalecer os partidos de esquerda, como
PCdoB, PCO, PSTU e PSOL, já em 2016. Esta é uma boa ideia. Todavia, é bom
lembrar que qualquer um destes quatro partidos, chegando no poder num futuro
distante, fará o mesmo que fez o PT, inevitavelmente. O que significa que a via
político-eleitoral-democrática não é a melhor solução. A grande ideia é a
POLITIZAÇÃO DO POVO ao longo das décadas seguintes, efetuada POR ELE MESMO,
(não de cima para baixo), através de suas inúmeras organizações como entidades
estudantis, grupos anarquistas, sindicatos livres, minorias, camponeses,
associações, enfim, todo o conjunto que forma a sua imensa base social,
desligada completamente do poder público e dos grupos econômicos de qualquer
nível ou escala. Somente quando o povo possuir uma razoável compreensão do seu
poder natural e inerente, será possível dar início à VERDADEIRA REVOLUÇÃO. Se
esta politização não for feita, se a massa permanecer na sua habitual
ignorância, na sua eterna inércia, se nada for feito para tentar despertá-la de
seu torpor, o jogo tenderá SEMPRE para o lado das elites que detém o poder
político, econômico, jurídico, eleitoral, midiático, policial e repressor. A
única salvação para o povo é ELE MESMO. Esta é a visão mais avançada da
esquerda mundial.
Desejo a todos uma LONGA LUTA!...
Marcos Nunes Filho – Muriaé/MG – Maio de
2016.
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