Outro texto de Frei Betto:
“Lástima que o PT se deixou picar pela
mosca azul. Não ousou implementar reformas de estruturas, como a política, a
tributária e a agrária. Permitiu que o Fome Zero, de caráter emancipatório,
fosse substituído pelo Bolsa Família, compensatório. Erradicou, em fins de
2004, Comitês Gestores em mais de 2 mil municípios, e entregou às mãos dos
prefeitos o cadastro do Bolsa Família.
Como se a retórica fosse suficiente para
encobrir gritantes desigualdades, o PT tentou, em vão, ser o pai dos pobres e a
mãe dos ricos. Para renovar o Congresso, não confiou no potencial político de
líderes de movimentos sociais. Preferiu alianças promíscuas, cujos vírus
oportunistas acabaram por contaminar alguns de seus dirigentes. Em 13 anos de
governo, não se empenhou na alfabetização política da nação nem na
democratização da mídia, sequer no modo de distribuir verbas publicitárias para
veículos de comunicação.
Graças ao crédito facilitado, ao controle
da inflação e ao aumento real (e anual) do salário mínimo acima da inflação, a
população teve mais acesso a bens pessoais. Dentro do barraco de favela, toda a
linha branca favorecida pela desoneração tributária e, ainda, computador,
celular e, quem sabe, no pé do morro, o carro comprado a prestações.
Porém, lá está o barraco ocupado pela
família sem acesso à moradia, segurança, saúde, educação e ao transporte
coletivo de qualidade. A prioridade deveria ter sido o acesso aos bens sociais.
Criou-se, portanto, uma nação de consumistas, não de cidadãos, nação feita de
eleitores que votam como quem cumpre um preceito religioso ou retribui um favor
de compadrio, enternecidos com os laços de família que se estendem do netinho
evocado em pleno parlamento à protuberância glútea exibida ministerialmente.
Entre avanços e desvios, o PT deixa como
legado programas sociais que merecem figurar como políticas de Estado, e não
ocasionalmente de governos. Mas terá o partido a ousadia de se reinventar?
Agora, os pobres, os excluídos, os
sem-terra e os sem-teto, que tinham a esperança de ser felizes, terão que
buscar outras agremiações partidárias ou forjar novas ferramentas de fazer
política, fundadas na ética, na supressão das causas de desigualdades sociais e
na busca de um outro Brasil possível.”
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